POESIAS CATALOGADAS
Mitos japoneses e asiáticos
Poesia 001 — Amaterasu – A Luz Que Se Esconde
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
O sol, cansado de brilhar,
fechou a porta do céu.
O mundo respirou em sombra.
Nas montanhas,
os deuses acenderam tambores —
o som, ao tocar o ar,
virou riso.
E o riso chamou a luz.
Ela espiou pela fenda,
viu o espelho,
viu a si mesma,
e o sol voltou a nascer.
Desde então,
toda manhã é lembrança desse gesto:
a claridade abrindo a cortina
porque alguém ousou dançar na escuridão.
Poesia 002 — Fuxi – O Tecedor de Leis
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
Sobre o dorso do dragão,
traçou o destino em linhas.
O mundo, antes caos,
virou teia.
Cada traço, um caminho;
cada curva, um ensinamento.
Nas runas do acaso,
o homem aprendeu a ler o invisível.
E quando o vento sopra
sobre o espelho da água,
ainda é ele escrevendo,
corrigindo o equilíbrio
com a caligrafia do eterno.
Poesia 003 — Nüwa – A Mãe da Argila
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
Sozinha,
ela caminhava pelo barro.
O mundo era ruído,
as montanhas, feridas abertas.
Moldou figuras com os dedos:
primeiro frágeis,
depois vivas.
Soprou nelas o vento,
e o vento aprendeu a dizer “eu”.
Quando o céu se rompeu,
ela buscou pedras de mil cores
e costurou o firmamento.
O arco-íris nasceu
como cicatriz divina.
Desde então,
tudo que se quebra
espera por mãos que saibam recompor.
Poesia 004 — O Dragão Celeste – O Sopro Azul
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
Não é fera,
é movimento.
A curva de seu corpo
é o próprio gesto do vento.
Na chuva, sua voz.
No trovão, seu riso.
Onde ele passa,
os rios se levantam,
as nuvens se curvam.
O homem o teme,
mas o mar o saúda —
porque reconhece o irmão.
E quando some,
o ar fica leve,
como se o mundo, por um instante,
tivesse lembrado a infância.
Poesia 005 — Pangu – O Corpo do Mundo
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
Do silêncio se abriu um ovo.
Dentro, o caos dormia misturado —
luz e sombra, ar e pedra,
respiração e abismo.
Quando o ovo se partiu,
ele despertou.
E ao erguer o céu com a cabeça,
a terra se fez firme sob seus pés.
Morreu para que o mundo respirasse:
seu sangue virou rio,
seu hálito, nuvem,
seus ossos, montanhas,
seus olhos, o sol e a lua.
Até hoje, o trovão repete seu suspiro.
E cada raio de luz que corta o horizonte
é o músculo antigo de Pangu
mantendo o céu no lugar.
Poesia 006 — Susanoo – O Mar Que Desobedece
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
O vento levanta poeira no céu,
as águas rugem,
a terra treme.
Susanoo ri.
O caos é sua infância,
a tempestade, seu idioma.
Entre o trovão e o sal,
corta monstros,
liberta rios,
e sempre, ao fim,
volta ao exílio do próprio peito.
Não busca perdão,
busca sentido.
E quando o sol o ignora,
ele mergulha mais fundo —
porque até o mar
precisa de um deus que o entenda.
Poesia 007 — Tsukuyomi – O Frio que Observa
Grupo: Mitos japoneses e asiáticos
Entre o brilho e o silêncio,
há uma lâmina fina:
a lua.
Ela não queima,
mas fere.
Não fala,
mas julga.
O tempo escorre em sua face de prata,
maré e memória movendo-se juntas.
O dia corre atrás,
nunca o alcança —
eles se amam,
mas vivem separados.
E cada noite,
quando o mar se levanta,
é o coração do mundo
tentando tocá-lo.
Orixás
Poesia 008 — Ewá – Guardiã do Mistério e da Visão
Grupo: Orixás
Ewá, senhora do rio sagrado,
teu corpo é correnteza clara,
teu olhar é vidro que atravessa o tempo,
tua palavra é silêncio que revela.
És a beleza que não se exibe,
a flor que nasce escondida,
a jóia guardada no fundo do rio.
Não precisas de coroa de ouro,
porque tua coroa é o segredo
que ninguém ousa decifrar.
Ewá, senhora da visão,
em teus olhos mora o futuro,
em teus gestos mora o aviso,
em tua calma mora a verdade que não engana.
Tu vês o que os outros não veem,
tu sabes o que os outros não dizem,
tu guardas os caminhos que ainda não nasceram.
Orixá do amor casto,
és a chama que arde sem consumir,
és o desejo que não prende,
és o encanto que não ilude.
Teu corpo é mistério de luz,
teu axé é véu que cobre e descobre
na hora certa.
Ewá, irmã de Oyá,
companheira dos ventos,
mas tua força não é furacão,
é brisa que anuncia mudança.
És a guardiã dos Eguns,
aquela que conduz os espíritos,
aquela que mostra que a vida e a morte
são apenas margens de um mesmo rio.
Ri Ewá!
Rainha da visão,
senhora da beleza velada,
teu axé é estrela escondida no céu da noite,
teu poder é ver o que ninguém mais vê.
Poesia 009 — Exu – Senhor das Encruzilhadas
Grupo: Orixás
Exu, dono do movimento,
aquele que ri antes do mundo acordar,
que acende a primeira chama no escuro da noite
e abre as sete portas da manhã.
Tu és o grito que rasga o silêncio,
és o passo que não se perde,
és o vento que confunde os caminhos
e o guia secreto que mostra a saída.
Guardião dos segredos que os homens temem,
ninguém passa sem tua licença,
ninguém fala sem tua escuta,
ninguém chega sem que tu abras a estrada.
Teu corpo é fogo,
tua palavra é faca que corta a mentira,
tua risada é tambor que acorda os espíritos.
Exu, menino e velho,
malícia e verdade,
trança que prende o destino e o solta de novo.
Na encruzilhada o mundo se encontra,
e no teu axé tudo começa outra vez.
Poesia 010 — Iansã – Senhora dos Ventos e das Tempestades
Grupo: Orixás
Iansã, Oyá, mulher de fogo e de vendaval,
teu nome é rajada que sacode as folhas,
é trovão que se mistura ao grito,
é raio que corre no céu com teus passos.
Tu não caminhas, tu corres,
não falas, trovejas,
não passas, varres:
és a força que não se doma,
a paixão que não se controla,
a tempestade que não pede licença.
Iansã, rainha dos raios,
senhora dos nove ventos,
teu corpo é dança em fúria,
tua pele é brasa viva,
teu olhar é chama que atravessa muralhas.
És guerreira que não teme a morte,
és amante que não conhece o medo,
és mãe que protege com unhas de vento
e carrega no braço a coragem dos ancestrais.
Com tua espada reluzente,
com teu eruexim que varre o mal,
abres caminhos em meio à tormenta
e mostras que o caos também é sagrado.
Iansã, dona do relâmpago,
és companheira de Xangô,
és fogo que dança ao lado do trovão,
és chama que ilumina o palácio do rei da justiça.
Mas és também senhora dos Eguns,
rainha que guia os espíritos,
aquela que atravessa o portal dos mortos
sem temer o frio do outro lado.
Oyá, rainha dos ventos!
Na tua fúria aprendemos a coragem,
no teu vendaval aprendemos a mudança,
no teu fogo aprendemos que viver
é arder e recomeçar sempre.
Eparrey, Iansã!
Tempestade viva, raio de mulher,
és furacão que levanta os fracos
e derruba os tiranos com teu sopro de liberdade.
Poesia 011 — Ibeji – Gêmeos da Alegria e da Pureza
Grupo: Orixás
Ibeji, crianças eternas,
vosso riso é tambor pequeno
que sacode o coração dos homens grandes.
Na vossa dança mora a vida,
no vosso jogo mora o destino,
na vossa inocência mora a sabedoria
que nenhum adulto alcança.
Gêmeos de axé,
um é o espelho do outro,
um completa o outro,
um canta, o outro responde,
e juntos fazem da infância
um templo de luz.
Ibeji, donos do doce,
reis das guloseimas e do brinquedo,
não precisais de coroa nem trono:
vosso reinado é o riso,
vosso cetro é a flor,
vosso axé é a alegria que não envelhece.
Em vossas mãos a vida recomeça,
em vossos olhos o mundo se renova.
Sois a lembrança de que a pureza é força,
de que a criança é rainha,
de que a simplicidade é riqueza.
Ibeji, guardiões da infância,
ensinai aos homens a leveza do brincar,
ensinai às mulheres a ternura do colo,
ensinai aos velhos que a vida é roda
e que sempre voltamos a ser crianças.
Beijada, Beijis!
Gêmeos sagrados,
senhores do sorriso,
vosso axé é doce como mel,
vosso poder é eterno como a infância.
Poesia 012 — Iemanjá – Mãe do Mar e do Infinito
Grupo: Orixás
Iemanjá, senhora das águas salgadas,
rainha coroada de conchas e espuma,
tua voz é o canto das marés,
teu corpo é o balanço eterno do oceano.
Mãe de muitos, mãe sem fim,
teu ventre é morada da vida,
teus braços são cais para todos os náufragos,
teu colo é maré mansa que acalma
os corações que se perdem no medo.
Iemanjá, Odoyá!
Teu nome é grito e saudação,
teu nome é canto que atravessa praias,
teu nome é súplica e agradecimento.
Ninguém volta do mar sem levar contigo
um pouco da tua bênção,
um pouco da tua força,
um pouco da tua memória ancestral.
És senhora da maternidade,
coroa de todas as mães,
teu leite é sal que cura feridas,
teu abraço é mar que não se cansa de acolher.
No teu colo cabem todos os filhos,
do mais perdido ao mais amado,
e todos são iguais quando tocas suas cabeças
com tuas mãos de onda.
Rainha das águas imensas,
teus olhos são luas refletidas,
tua coroa é espuma que não se apaga,
teu axé é imensidão sem fronteiras.
No teu reino, peixes dançam como estrelas,
e cada concha guarda segredo de amor.
Odoyá, Mãe das águas infinitas!
És canto de sereia, és brisa que consola,
és força que sustenta a travessia.
Em ti aprendemos que o mar não tem fim,
assim como teu amor não conhece limite.
Poesia 013 — Ifá – Senhor da Sabedoria e do Destino
Grupo: Orixás
Ifá, Orunmilá,
pai que conhece todos os caminhos,
senhor das palavras que não se perdem,
guardião do segredo que sustenta o mundo.
Em tuas mãos repousam os búzios,
conchas que falam como vozes antigas,
espelhos onde o destino se mostra
como rio que corre para o mar.
Tu não erras,
porque tua ciência é raiz da verdade,
porque teu saber não é humano,
é o sopro dos ancestrais que mora em ti.
Ifá, senhor da adivinhação,
nenhuma dúvida te confunde,
nenhum mistério te assusta.
Conheces a vida antes do nascimento,
conheces a morte antes do silêncio,
conheces o futuro antes que ele se escreva.
Oráculo eterno,
teus versos são mapas,
teus cânticos são estradas,
teu axé é bússola que nunca falha.
És a memória do que já passou,
és a visão do que virá,
és a certeza do presente.
Orunmilá, pai da sabedoria,
tu nos mostras que destino não é prisão,
mas caminho que se pode trilhar com fé.
Tu nos ensinas que a palavra é poder,
que o silêncio é resposta,
que o conhecimento é luz que nunca se apaga.
Ifá, senhor dos segredos,
dono do saber que não envelhece,
tua coroa é feita de silêncio,
teu trono é feito de paciência,
teu reinado é a eternidade.
Eleripin, Ifá!
Pai da verdade,
em teu axé entendemos
que tudo está escrito,
mas tudo pode ser refeito
pela mão que tem fé.
Poesia 014 — Logunedé – Príncipe da Caça e das Águas
Grupo: Orixás
Logunedé, menino-rei,
teu corpo é metade mata, metade rio,
teu espírito é caça e correnteza,
tua coroa é dourada como o sol da manhã.
Filho de Oxóssi, herdas o arco certeiro,
filho de Oxum, herdas o espelho de ouro.
Na floresta, és príncipe caçador,
nas águas, és senhor da fartura.
Teu reino é duplo,
teu axé é mistura,
teu poder é juventude que não conhece limites.
Logunedé, caçador-menino,
teu passo é ágil como a sombra do veado,
tua flecha é firme como promessa de futuro.
Mas quando te banhas nas águas de tua mãe,
teu corpo reluz como ouro líquido,
teu olhar é doce como mel que escorre na boca da vida.
És príncipe da beleza,
guardião da alegria,
espelho da juventude que dança sem medo.
Em ti não há velhice,
em ti não há cansaço:
és eternidade vestida de juventude,
és frescor que não se apaga.
Logunedé, orixá menino,
ensinaste que a força também pode ser delicada,
que a caça também pode ser ternura,
que o guerreiro também pode ser brilho de ouro.
Odé Logun, príncipe dourado!
Caçador do futuro,
pescador dos sonhos,
em ti a vida se renova,
em ti o mundo sorri.
Poesia 015 — Nanã – Senhora da Lama e da Eternidade
Grupo: Orixás
Nanã Buruku, avó dos Orixás,
tua palavra é mais antiga que o tempo,
teu silêncio é mais profundo que o mar,
tua presença é raiz que atravessa gerações.
Mãe das águas paradas,
onde o espelho guarda mistério,
onde o tempo não corre apressado,
mas se deita como criança no colo da eternidade.
Nanã, senhora do barro,
és a lama sagrada que molda o corpo,
és a terra molhada que deu forma ao homem,
és o útero do mundo,
de onde tudo nasce
e para onde tudo retorna.
Teu axé é o ciclo que não se quebra:
do pó ao pó,
da vida à morte,
do princípio ao fim que é outro começo.
Em ti a morte não é fim,
é passagem,
é retorno,
é descanso.
Nanã, rainha da sabedoria,
teus olhos viram o que ninguém mais lembra,
teus ouvidos guardam segredos que não se contam,
teus passos marcam o compasso da criação.
Não corres, não gritas, não guerreias:
és a calma que vence o tempo,
és a paciência que sustenta o destino.
Tua coroa é de silêncio,
teu trono é o fundo das águas,
teu manto é a noite sem pressa.
Em ti aprendemos que o mais velho é raiz,
que o mais lento é eterno,
que o mais antigo é fundamento.
Salubá Nanã!
Avó sagrada,
rainha das águas profundas,
em teu axé aprendemos que o barro que somos
é o mesmo barro que nos guarda
quando a vida termina sua canção.
Poesia 016 — Obá – Guerreira do Rio e do Sacrifício
Grupo: Orixás
Obá, rainha do rio vermelho,
tua correnteza é luta,
tua espuma é sangue que não teme a guerra.
Tu não corres da batalha,
tu és a batalha.
Teu grito é espada,
teu silêncio é escudo,
teu corpo é muralha que ninguém atravessa.
Guerreira altiva,
teu arco não erra,
tua lança não falha,
tua coragem não se quebra.
És mulher de guerra,
és a chama que arde no peito das que não se curvam,
és o tambor que desperta a fúria das águas.
Obá, senhora da dignidade,
teu sacrifício é cicatriz que vira coroa.
Na tua entrega aprendemos que a dor também é força,
que a perda também é realeza,
que o amor não é fraqueza,
mas chama que arde até no silêncio do corpo.
Tua beleza não está no espelho,
mas no suor que brilha no rosto,
na fibra que sustenta tua luta,
na firmeza que ergue tua cabeça mesmo em queda.
Obá, rainha das águas revoltas,
teu rio não canta como Oxum,
teu rio não acolhe como Iemanjá,
teu rio grita, se levanta, se enfurece.
E no teu grito está a verdade:
o amor também é luta,
a vida também é guerra,
a mulher também é espada.
Xirê Obá!
Rainha guerreira,
senhora da coragem,
ensinaste que perder pode ser vitória,
e que a verdadeira força
é nunca deixar de lutar.
Poesia 017 — Ogum – Senhor do Ferro e da Guerra
Grupo: Orixás
Ogum, dono da espada que corta o impossível,
teu braço é muralha, tua coragem é tempestade.
Filho do ferro, senhor dos caminhos abertos,
em ti o medo não respira, em ti só existe o avanço.
És o soldado que nunca recua,
o guerreiro que abre clareira na mata fechada,
o martelo que molda o destino,
a forja que transforma o fogo em escudo.
Ogum, cavaleiro da alvorada,
és o silêncio da estratégia
e o rugido que abala a terra quando decides lutar.
Na tua lança se ergue a justiça,
na tua armadura habita a proteção dos filhos de fé.
Pai das batalhas que não se vêem,
guardião das guerras que são dentro da alma,
ensinas que a vitória não está em esmagar o outro,
mas em não deixar que a sombra vença o coração.
Ogum, senhor da estrada longa,
aquele que caminha à frente,
aquele que enfrenta o impossível
com o peito aberto e o olhar de fogo.
Teu nome é grito de guerra e de esperança,
teu passo é tambor que marca o tempo da luta,
teu axé é espada que brilha na noite
para que os teus filhos nunca se percam.
Ogum, Ogunhê!
Dono da vitória, senhor da coragem,
rei do ferro eterno,
em ti o mundo aprende que todo começo é luta
e toda luta é caminho para a luz.
Poesia 018 — Omolu – Senhor da Terra e da Cura
Grupo: Orixás
Omolu, Obaluayê,
senhor que se veste de palha para esconder o mistério,
rei silencioso dos cemitérios e das aldeias,
teu passo é pó que cobre a estrada,
teu olhar é sombra que todos temem
e todos precisam.
Tua coroa não é de ouro,
é feita de cicatrizes e cinzas.
Teu manto é de palha sagrada,
não para esconder tua dor,
mas para revelar que a vida também é mistério,
e que nem tudo se mostra aos olhos dos homens.
Omolu, dono da peste e da cura,
na tua mão a doença caminha,
mas também caminha a salvação.
És o fogo que arde de dentro,
és a febre que purifica o corpo,
és a dor que ensina o valor da vida.
Senhor da terra que recebe os mortos,
teu axé é pó que volta ao pó,
teu reinado é silêncio que ninguém ousa quebrar.
Mas no mesmo chão onde o corpo cai,
tu fazes brotar a semente,
tu fazes crescer o remédio,
tu fazes florescer o milagre.
Omolu, pai dos curadores,
teus filhos são mãos que tocam a ferida
e a transformam em cicatriz.
Teu axé é remédio escondido nas ervas,
é reza sussurrada à meia-noite,
é brisa fria que leva embora o mal.
Obaluayê, rei da transformação,
senhor que conhece o segredo da morte
e o caminho da vida que renasce.
Em ti não há vaidade,
apenas verdade.
Em ti não há ilusão,
apenas a força do que é eterno.
Atotô, Obaluayê!
Te saudamos em silêncio,
te reverenciamos em respeito.
Porque em ti aprendemos
que a dor também é caminho,
e que toda cura nasce
do pó da própria terra.
Poesia 019 — Ossain – Senhor das Folhas e dos Segredos
Grupo: Orixás
Ossain, dono das folhas,
rei escondido na mata profunda,
teu trono é o verde que cobre a terra,
teu manto é o mistério que se balança nas árvores.
Cada folha em tuas mãos é um oráculo,
cada raiz é remédio,
cada semente é segredo.
Tu conheces a ciência dos ventos,
a medicina que dorme no silêncio,
a palavra que cura sem ser ouvida.
Ossain, senhor da solidão sagrada,
teu passo é leve como sombra,
teu canto é brisa que atravessa a mata,
tua força é invisível,
mas mais poderosa que o ferro ou o trovão.
És o curador do corpo e da alma,
guardião da vida que renasce na folha,
aquele que sabe que não há dor
sem que a natureza guarde o antídoto.
Ossain, mestre da mata,
não precisas de coroa dourada,
teu ouro é o verde infinito,
teu palácio é a floresta,
teu axé é o perfume das ervas
que dançam com o vento.
És também guardião do segredo:
ninguém conhece tudo,
ninguém toca tudo,
ninguém possui todas as folhas,
porque em cada planta há um mistério
que só tu revelas no tempo certo.
Eruexim que balança,
canto que ecoa,
força que sopra.
Ossain, Obá Ewé!
Te saudamos no silêncio,
porque tua palavra é vento,
e teu poder é raiz.
Poesia 020 — Oxalá – Pai da Criação e da Paz
Grupo: Orixás
Oxalá, pai dos começos,
teu sopro é o que ergueu os céus,
tua palma é a que moldou a terra,
teu olhar é claridade que nunca se apaga.
Vestido de branco,
tu és pureza que atravessa os séculos,
és a calma que acalma as guerras,
és a paz que sustenta o mundo.
Oxalá, Obatalá,
tua presença é silêncio que canta,
é brancura que ilumina,
é neve sagrada que refresca a alma.
Não precisas de espada,
não precisas de grito:
tua força é a mansidão,
tua arma é a paciência,
teu reino é o coração dos que sabem esperar.
Pai da criação,
nas tuas mãos de barro nasceu a humanidade,
nos teus dedos de luz se acenderam os destinos,
na tua vontade repousa o equilíbrio do mundo.
Oxalá, senhor do pano branco,
aquele que se deita sobre o corpo cansado
e o cobre de paz.
Aquele que, em cada gesto,
ensina que a grandeza está na simplicidade
e que a vitória está no silêncio da fé.
Tua coroa é brancura sem mancha,
teu trono é montanha de calma,
teu axé é horizonte sem fim.
No teu nome não há guerra,
no teu nome não há mentira,
apenas a serenidade
que sustenta todos os caminhos.
Êpa Babá, Oxalá!
Pai eterno, senhor da paz,
teu branco é claridade que guia,
teu axé é a certeza
de que toda vida retorna à luz.
Poesia 021 — Oxum – Senhora dos Rios e do Ouro
Grupo: Orixás
Oxum, dona das águas que acariciam a terra,
rios que correm como véus de seda,
espelhos onde o mundo se contempla
e encontra no reflexo a beleza do divino.
Mãe dourada, senhora do ouro que não se gasta,
teu brilho não é moeda de troca,
é luz que se derrama no corpo e na alma,
é perfume de mel que adoça o caminho dos filhos.
Oxum, deusa do amor que não mendiga,
tu não te entregas ao vazio,
ensinas que a paixão é rio sereno,
que o desejo é correnteza que se respeita,
e que o coração é templo de realeza.
Teu corpo é dança sobre as águas,
teu sorriso é claridade de manhã nascente,
teu axé é doce como fruta madura,
tua presença é calma que devolve o fôlego
ao peito cansado da luta.
És a guardiã das mães,
colo eterno para quem chora,
remédio invisível para as dores
que não se dizem em voz alta.
Oxum, senhora das crianças,
és ternura que protege,
és lágrima que vira canto,
és bênção que corre no rio da vida.
Oxum, Iyabá de ouro reluzente,
no teu reino ninguém é pobre,
porque tua riqueza não é apenas ouro,
é fartura de amor,
é beleza que não se compra,
é axé que jamais se apaga.
Ora iê iê ô, Mamãe Oxum!
Rainha das águas doces,
dona do espelho e da coroa,
ensinas que toda vida começa na água
e todo amor floresce no teu ventre de luz.
Poesia 022 — Oxumarê – Arco-Íris e Serpente
Grupo: Orixás
Oxumarê, senhor do movimento,
teu corpo é arco-íris que risca o céu,
teu corpo é serpente que abraça a terra.
És a ponte entre mundos,
és o elo que une começo e fim,
és o ciclo que nunca termina.
No alto, tu brilhas em sete cores,
promessa de fartura,
sinal de renovação.
No fundo da terra,
teu corpo serpenteia,
guardando tesouros invisíveis,
riquezas que não se contam em ouro,
mas em vida que nunca cessa.
Oxumarê, orixá do eterno retorno,
tu ensinas que nada é fixo,
que tudo é fluxo,
que toda morte é semente,
que toda queda é renascimento.
És também dono da riqueza,
não apenas do brilho que encanta os olhos,
mas da abundância que corre como rio,
da prosperidade que se move como serpente viva.
Teu ouro não é estático,
é cor que dança,
é fortuna que gira,
é axé que não se prende.
Oxumarê, arco-íris de esperança,
serpente de mistério,
senhor do céu e da terra.
Em ti aprendemos que nada se repete,
mas tudo retorna.
Que o fim é apenas curva,
e que a vida é sempre movimento.
Arroboboi, Oxumarê!
Rei das cores e dos mistérios,
teu axé é ponte viva
que nos lembra que tudo muda,
mas nada se perde.
Poesia 023 — Oxóssi – Caçador das Sete Flechas
Grupo: Orixás
Oxóssi, senhor da floresta sem fim,
rei do arco que não erra,
do silêncio que esconde segredos,
da fartura que brota quando teu axé respira.
Caçador solitário,
teu passo é leve como a sombra da folha,
teu olhar é certeiro como a flecha que voa.
Nas matas tu és rei,
no coração dos homens és guardião do sustento.
Oxóssi, Ogã da abundância,
no teu canto o vento traz perfume de folhas,
na tua mão a caça se entrega,
na tua presença a mesa se enche,
e a fome se despede dos filhos da terra.
És o caçador que não mata por vaidade,
mas que entende o segredo da vida:
cada animal, cada semente, cada gota de orvalho
é parte de ti, e tu és parte de tudo.
Oxóssi, dono da sabedoria das ervas,
na tua ciência mora a cura,
na tua flecha mora a precisão,
na tua mata mora o axé de Ossain,
no teu peito mora a liberdade.
Senhor da fartura, príncipe da mata verde,
aquele que se veste de silêncio e sombra,
aquele que vê o invisível
e transforma em pão o que parecia distante.
Oxóssi, Odé!
Caçador da vida, rei da floresta,
aquele que ensina que o mundo é abundância
para quem sabe esperar a hora certa da colheita.
Poesia 024 — Xangô – O Rei do Trovão e da Justiça
Grupo: Orixás
Xangô, teu nome é trovão que sacode o céu,
é raio que rasga a escuridão,
é fogo que cai da montanha
para lembrar aos homens que a mentira tem preço.
Rei coroado, senhor da verdade,
aquele que pesa o coração dos vivos
e julga não pela força, mas pela justiça.
Na tua mão, o oxé reluz,
dupla lâmina que corta a vaidade
e abre caminho para o equilíbrio.
Xangô, pai da lei,
aquele que não teme o poder dos soberbos,
aquele que derruba castelos de areia
e ergue palácios de pedra firme.
Teu trono é o rochedo,
teu manto é o fogo,
teu grito é trovão que ninguém cala.
És o sopro quente da tempestade,
és o rugido que sacode a terra,
és a lembrança de que nenhum poder humano
é maior do que o axé da justiça.
Xangô, Alafin, rei dos reis,
em teu semblante mora a realeza,
em teu olhar arde a chama
que separa o certo do errado.
No teu julgamento não há espaço para engano,
pois tu és a balança que equilibra o mundo.
Senhor do fogo que purifica,
teu axé queima para transformar,
não para destruir.
És chama que ilumina,
és trovão que desperta,
és justiça que guia os filhos da terra.
Kao Kabiesilé, Xangô!
Rei eterno, voz do raio,
guardião da verdade.
Em teu nome aprendemos que a justiça
é o único caminho que sustenta o mundo.
Povos originários e tradições ancestrais
Poesia 025 — Guaraci – O Olho que Sustenta o Dia
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
O sol abre a cortina da manhã
como faca de ouro cortando véus de neblina.
Na sua boca, o fogo canta
sem precisar de palavras.
Não há sombra que resista ao seu peso,
não há frio que não se curve ao seu passo.
Ele é olho aceso no céu,
sentinela que vigia as aldeias
e guarda o corpo da terra.
Cada raio é flecha,
cada calor é abraço,
cada pôr é promessa de retorno.
E quando mergulha no horizonte,
não morre:
descansa em silêncio,
aguardando a hora de riscar de novo
a pele da madrugada.
Poesia 026 — Inti – O Coração do Dia
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Do alto das montanhas ele vigia,
olho de ouro que jamais pisca.
O frio se curva sob seus pés,
as pedras se abrem em flor de calor.
Não é apenas luz:
é pulso.
Cada raio é sangue que alimenta o mundo,
cada amanhecer, um batimento do tempo.
Os povos o chamam,
mas ele nunca responde.
Seu silêncio é ordem,
seu brilho, sentença.
Nos templos, o ouro imita seu rosto,
mas o verdadeiro rosto está no espelho da água,
quando o sol mergulha e a luz se desmancha em cor.
E mesmo quando parte,
o frio o busca,
o homem o espera,
porque até a noite
é apenas o corpo de Inti descansando.
Poesia 027 — Jaci – O Espelho da Noite
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Um rosto de prata se inclina sobre a terra,
não fala,
mas derrama caminhos de luz sobre os rios.
A cada fase,
seus olhos mudam de forma:
ora fina lâmina de silêncio,
ora rosto cheio que embriaga o céu.
Nos amores, é confidente;
nos sonhos, é guia.
Seu clarão não queima,
sussurra.
Não fere,
acolhe.
A mata reconhece seus passos:
as corujas dançam na sua sombra,
as águas se enfeitam de brilho,
o corpo humano desperta desejos
sob o véu prateado que cobre os amantes.
E quando some,
não é ausência:
é promessa.
A lua nunca abandona,
apenas se esconde para ensinar
que até a claridade precisa descansar.
Poesia 028 — Kukulkán – A Escada do Sol
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
No instante em que o sol toca a pedra,
a sombra desce como serpente viva.
Não é truque —
é lembrança.
O tempo aqui não é linha,
é escada.
Cada degrau uma era,
cada passo um retorno.
Entre a luz e a sombra,
a serpente dança.
Não rasteja: desliza entre mundos,
une o céu ao chão,
o homem ao infinito.
Seu corpo é calendário,
sua pele, o ouro do crepúsculo.
Onde ela passa,
os dias se renovam,
as cidades respiram,
as pedras cantam.
Kukulkán é o vento que pensa,
o sol que sonha,
a serpente que ensina
que até o tempo precisa ter corpo
para poder existir.
E quando o dia termina,
ela se dissolve na luz —
como se o próprio sol
estivesse voltando para casa.
Poesia 029 — Lisa – O Sol Que Anda com a Noite
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Enquanto Mawu repousa,
Lisa caminha.
Traz nos ombros o fogo,
e nas pegadas, o amanhecer.
Não é chama:
é pulso.
Corre entre folhas e peles,
faz a seiva subir,
faz o sangue lembrar o caminho.
O dia não é seu trono,
é seu ofício.
E cada crepúsculo é um aceno
à companheira noturna que o completa.
Juntos — noite e dia —
mantêm o mundo em balanço.
Sem Mawu, a luz se perde;
sem Lisa, o frio vence.
Entre eles, tudo respira.
Poesia 030 — Mawu – A Noite que Sonha
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
No princípio havia frescor,
um sopro escuro onde o tempo dormia.
Da palma de suas mãos
brotaram estrelas como sementes tímidas.
O universo não nasceu em grito —
nasceu em canto baixo,
murmúrio de mãe embalando o vazio.
Mawu é o sono que sustenta a aurora,
é a sombra que protege a luz.
Enquanto o sol arde,
ela sonha o equilíbrio.
E quando a noite cai,
seu rosto se espalha em prata
para lembrar que até o escuro
também brilha.
Poesia 031 — Nyame – O Céu Que Pende
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
O firmamento é seu corpo suspenso.
As nuvens, ossos de luz.
Nyame olha o mundo de cima,
mas não com desprezo —
com cuidado.
Chove quando lembra,
relampeia quando adverte.
O homem planta pedindo ao chão,
mas é a ele que o chão obedece.
Entre o trovão e o silêncio,
seus olhos piscam:
branco, azul, branco.
Um código que o mundo ainda traduz.
Poesia 032 — Nzambi – A Respiração da Floresta
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Umidade e tambor.
Nas folhas molhadas,
o espírito anda.
Nzambi não cria —
renova.
A cada chuva, a cada trovão,
sua voz se espalha em mil direções.
O mundo é sua pele:
verde, grossa, infinita.
E cada árvore é um nervo seu
tremendo de vida.
Quem o procura,
ouve o som das cigarras
e entende:
ele nunca foi embora.
Poesia 033 — Olodumaré – O Silêncio Acima do Céu
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Não fala.
Não precisa.
Seu corpo é o próprio espaço,
e o espaço, o eco de sua lembrança.
Os deuses o chamam,
mas ele é anterior até ao som dos nomes.
Do alto, observa o ciclo:
vida, morte, retorno —
como ondas subindo e descendo
sobre o mesmo mar.
O homem o imagina distante,
mas o ar que respira
é parte de seu peito.
Nada está fora,
porque nada é fora dele.
Poesia 034 — Pachamama – O Ventre do Mundo
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Debaixo da terra há um coração.
Não bate — respira.
Cada raiz é veia,
cada pedra, lembrança do seu corpo antigo.
Os homens caminham sobre ela
como quem pisa no peito da própria mãe.
E mesmo assim, ela alimenta.
Engole a semente,
devolve o milagre.
Aceita o corpo,
transforma em flor.
Nada nela é desperdício.
O que cai, renasce;
o que morre, repousa;
o que fere, também cura.
Quando o sol se cala,
ela sussurra em linguagem de grilos e folhas:
“Tudo o que existe é meu filho.”
E quando a fúria vem —
tremor, vendaval, enxurrada —
não é castigo.
É lembrança:
ninguém possui o chão,
ninguém está acima daquilo
que o sustenta.
Pachamama não é nome,
é respiração da terra,
é ventre aberto
onde o tempo germina.
Poesia 035 — Quetzalcóatl – A Pele do Vento
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
O ar tem corpo —
quem o vê, se perde.
Quem o sente, desperta.
Uma serpente sobe o céu,
vestida de penas.
Carrega na espinha o arco-íris,
carrega nos olhos o segredo dos deuses:
mudar é sobreviver.
Em sua boca mora o sopro que move o tempo,
em seu corpo, o caminho entre o pó e o voo.
Nada nela é fixo,
tudo nela respira.
O vento que passa entre as folhas
é sua sombra.
O sussurro nas ruínas
é seu idioma esquecido.
Quetzalcóatl não reina —
flutua.
É palavra antiga
que o homem pronuncia sem saber.
É ponte entre o que rasteja
e o que sonha.
E quando o mundo se esquece,
ele retorna com o vento:
serpente que muda de pele,
deus que muda de forma,
vida que nunca para de recomeçar.
Poesia 036 — Sumé – O Caminho que Ensina
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Diziam que ele veio do mar,
mas o mar não disse nada.
Apenas abriu caminho
para um homem feito de silêncio.
Andava com passos lentos,
como quem escuta o chão respirar.
Nas mãos trazia sementes,
mas também gestos —
formas de ensinar sem palavras.
Mostrou aos homens
como o milho nasce do ventre da chuva,
como o peixe se entrega ao rio
quando o coração não tem pressa.
Ensinou que plantar
é conversar com o tempo.
Quando terminou o que devia,
voltou-se para o horizonte
e caminhou sobre as águas
como quem apaga as próprias pegadas.
Desde então,
tudo que floresce o repete:
cada broto,
cada colheita,
cada recomeço.
Sumé nunca ficou,
mas o mundo inteiro
carrega um pouco de sua passagem.
Poesia 037 — Tupã – O Trovão que Planta o Mundo
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
O raio não desce sozinho,
traz consigo o sopro do começo.
O céu se rasga em duas metades,
e da fenda brota a vida.
Cada trovão é tambor da floresta,
cada relâmpago é palavra escrita
no livro invisível do vento.
Do barro da terra molhada
surgiram os primeiros passos,
do sopro escondido na nuvem
nasceu o canto que deu nome às coisas.
Não há templo para sua morada:
ele se ergue nas árvores,
se move nos rios,
repousa nas estrelas.
O trovão não ameaça,
anuncia.
É memória da origem,
é aviso do eterno,
é a lembrança de que o homem
carrega em si o mesmo barro
que um dia o relâmpago tocou.
Poesia 038 — Ñanderu – O Sopro Invisível
Grupo: Povos originários e tradições ancestrais
Antes da palavra,
havia apenas um sopro.
E desse sopro
nasceram o vento, o canto, a vida.
Nenhum olho o viu,
mas toda folha o reconhece.
Nenhuma boca o nomeia,
mas toda ave o pronuncia em voo.
Ele não mora no céu nem na terra:
é o entre,
é o intervalo onde as coisas aprendem a existir.
Seu corpo é o som do primeiro trovão,
seu coração é a semente que nunca apodrece.
Quando o homem respira,
é ele quem respira dentro do homem.
Quando o rio corre,
é ele quem procura de volta o mar.
Ñanderu não cria para ser adorado,
cria para que o mundo
se lembre de que tudo está ligado.
E assim segue — invisível,
como ar que atravessa o tempo,
como voz que não precisa ser ouvida
para continuar dizendo.
Santos católicos
Poesia 039 — Nossa Senhora Aparecida – Mãe Negra do Brasil
Grupo: Santos católicos
Aparecida, mãe das águas,
tua imagem surgiu do rio como promessa,
pequena, quebrada, escondida na lama,
mas coroada de luz pelo povo que te reconheceu.
Negra como a terra fértil,
negra como o ventre onde a vida começa,
negra como a esperança do povo sofrido,
tu és o espelho da fé que nasce da dor
e se transforma em milagre.
Mãe Aparecida,
teu manto azul é céu que acolhe,
teu olhar é ternura que consola,
teu colo é abrigo de multidões.
O pobre em ti encontra esperança,
o rico em ti encontra humildade,
a criança em ti encontra proteção,
o Brasil inteiro em ti encontra mãe.
Senhora da pesca impossível,
na tua presença até o que é vazio
se enche de fartura.
No silêncio das águas,
na simplicidade da rede,
teu milagre se revelou
como quem diz: “a fé tudo alcança.”
Aparecida, padroeira do Brasil,
em cada romaria teu nome é canto,
em cada vela teu nome é luz,
em cada lágrima teu nome é consolo.
Tu não falas, mas teu silêncio grita amor.
Ó mãe negra coroada,
rainha do povo simples,
teu santuário é o coração de quem acredita.
E no teu abraço o Brasil se reconhece:
diverso, sofrido, resistente,
mas cheio de fé que nunca morre.
Salve, Nossa Senhora Aparecida,
mãe eterna, mãe do povo,
mãe que veio das águas
para nunca mais deixar de ser esperança.
Poesia 040 — Nossa Senhora de Fátima – A Senhora da Luz e da Paz
Grupo: Santos católicos
Fátima, mãe vestida de branco,
apareceste no campo humilde,
não diante de reis nem de sábios,
mas diante de três crianças,
porque o coração puro
é o que melhor escuta o céu.
Teu manto brilhava como neve,
teu rosto era ternura de estrela,
teu olhar trazia a firmeza do amor.
Tuas palavras foram sementes de paz,
teus silêncios foram chamados de fé,
tua presença foi luz que não se apaga.
Nossa Senhora de Fátima,
mãe que chorou pelos destinos do mundo,
teu aviso não foi ameaça,
foi cuidado,
foi amor de mãe que alerta os filhos
quando vê o perigo chegando.
Ensinaste o terço como arma,
não de guerra, mas de paz;
ensinaste a oração como escudo,
não de pedra, mas de esperança.
Em cada conta rezada,
um fio de luz tece um véu sobre a terra.
Fátima, mãe de claridade,
teu santuário é promessa,
teu nome é consolo,
teu colo é refúgio para os que tremem.
És mãe que fala na simplicidade,
mas cala exércitos de medo;
és mãe que aparece em silêncio,
mas move nações inteiras à oração.
Nossa Senhora de Fátima,
rainha da paz e da esperança,
em ti o mundo encontra consolo,
em ti os pequenos encontram abrigo,
em ti a fé encontra luz.
Salve, Senhora da luz serena!
Tua mensagem é eterna,
tua aparição é lembrança
de que Deus nunca abandona seus filhos.
Poesia 041 — Santa Bárbara – Guerreira da Fé e do Trovão
Grupo: Santos católicos
Santa Bárbara,
mulher que não se curvou à tirania,
tua juventude foi torre,
tua vida foi batalha,
teu sangue foi semente de coragem.
Teu pai quis prender tua alma,
quis erguer muros ao redor da tua fé,
mas tu ergueste em ti mesma uma fortaleza
mais alta que qualquer torre de pedra.
Nem prisões, nem ameaças,
nem a espada que caiu sobre ti
conseguiram calar o nome de Cristo em tua boca.
Bárbara, mártir do fogo e do raio,
tua memória resplandece nas tempestades,
teu rosto aparece no clarão do relâmpago,
tua voz ecoa no trovão que rompe o medo.
És guardiã dos que tremem,
és protetora dos que clamam,
és escudo dos que enfrentam tormentas.
Santa Bárbara bendita,
em ti as mulheres aprendem a força,
os guerreiros aprendem a coragem,
os fiéis aprendem a não negar sua fé.
Teu exemplo é espada invisível,
tua história é muralha contra o medo.
És senhora do raio que rasga o céu,
és fogo que ilumina na escuridão,
és mártir que transforma dor em vitória.
Santa Bárbara, guerreira de Deus,
em teu nome o trovão se curva,
em tua prece o relâmpago se acalma,
em teu axé o coração encontra coragem.
Salve, Santa Bárbara!
Rainha do raio,
mártir do amor,
tua chama nunca se apaga,
teu exemplo nunca se cala.
Poesia 042 — Santa Catarina de Alexandria – A Doutora da Verdade
Grupo: Santos católicos
Santa Catarina,
mulher de ciência e de coragem,
teu saber não era orgulho,
era dom oferecido ao Senhor.
Diante dos filósofos e reis,
teu argumento foi espada,
teu espírito foi muralha,
tua fé foi chama que não se apagou.
Não temeste a prisão,
não recuaste diante das ameaças,
tua voz era verdade,
tua mente era luz.
E quando a roda da tortura tentou te esmagar,
os céus intervieram:
o instrumento se quebrou,
mas tua fé permaneceu intacta.
Catarina mártir,
em ti as mulheres encontram força,
os estudiosos encontram exemplo,
os fiéis encontram coragem.
Tua coroa não é de princesa,
é de mártir;
teu trono não é de pedra,
é de eternidade.
Poesia 043 — Santa Cecília – A Mártir da Música e da Harmonia
Grupo: Santos católicos
Santa Cecília,
teu coração era instrumento de cordas,
tua voz era harpa invisível,
tua vida era canto que subia ao céu.
Ainda criança,
teus lábios já cantavam ao Senhor,
teu corpo era templo de pureza,
tua alma era altar de louvor.
Não te calaram os homens,
não te calaram as correntes,
não te calou a espada:
até na dor, tua boca louvava.
Cecília, mártir da música,
na festa do teu matrimônio
não ouviste o som das flautas e dos tambores,
mas cantaste em silêncio a melodia do Espírito.
E quando a espada caiu sobre ti,
não veio o silêncio da morte,
mas o hino da eternidade.
Padroeira dos músicos,
tua lembrança é partitura de fé,
tua vida é sinfonia de esperança,
teu martírio é acorde que não desafina.
Quem toca em teu nome, toca com mais ternura,
quem canta em tua honra, canta com mais pureza,
quem ora contigo, ora em melodia suave.
Santa Cecília,
teu canto atravessou séculos,
tua música nunca terminou,
teu exemplo é harmonia que sustenta a Igreja.
Ó virgem cantora,
ensina-nos a transformar a dor em louvor,
o silêncio em canção,
a vida em música para Deus.
Poesia 044 — Santa Dulce dos Pobres – O Anjo da Caridade
Grupo: Santos católicos
Santa Dulce,
pequena no corpo, gigante na fé,
tua batina azul se confundia com o céu,
porque tu eras abrigo de multidões.
Tua casa era hospital improvisado,
teu leito era chão partilhado,
tua mesa era sempre multiplicada.
Nos becos de Salvador,
os pobres te chamavam de mãe,
e tua resposta era sempre colo,
era sempre pão,
era sempre amor.
Dulce dos Pobres,
teu nome virou evangelho vivo.
Não pregaste em altares dourados,
mas nas ruas empoeiradas,
com remédios improvisados,
com ternura infinita.
Tua fé não tinha teorias,
tinha gestos.
Tua santidade não tinha distância,
tinha abraço.
Ó santa do Brasil,
anjo de bondade,
em ti aprendemos que a caridade
é o milagre mais verdadeiro.
Poesia 045 — Santa Luzia – Guardiã dos Olhos e da Luz
Grupo: Santos católicos
Santa Luzia,
tua vida foi chama que não se apagou,
mesmo quando o fogo e a espada
tentaram calar tua fé.
Jovem pura,
ofereceste tua vida como lâmpada ao Senhor,
e teu nome virou claridade
para todos os que buscam a visão verdadeira.
Luzia, mártir corajosa,
teus olhos foram feridos,
mas tua alma enxergava além das dores humanas.
Porque a visão que carregavas
não era só de carne,
era visão de eternidade,
era claridade que habita o coração dos santos.
Protetora dos olhos,
a ti recorrem os que perderam a visão,
a ti recorrem os que buscam clareza no caminho,
a ti recorrem os que desejam enxergar
não só com os olhos, mas com a fé.
Santa Luzia, lâmpada bendita,
tua coragem é tocha na escuridão,
tua entrega é estrela na noite,
teu martírio é farol que guia os navegantes da fé.
És também ternura,
porque tua luz não cega,
tua luz consola.
És também esperança,
porque tua claridade não julga,
tua claridade acolhe.
Santa Luzia,
em teu nome há promessa de visão,
em tua história há exemplo de coragem,
em tua fé há claridade que não se apaga.
Ó luz que nunca morre,
guarda nossos olhos,
guarda nossos passos,
guarda nossa fé.
Poesia 046 — Santa Rita de Cássia – A Santa das Causas Impossíveis
Grupo: Santos católicos
Santa Rita,
tua vida foi jardim de espinhos,
mas em cada dor floresceu uma rosa.
Esposa sofrida,
mãe ferida,
viúva marcada pelo peso da cruz,
nunca deixaste de acreditar
que a fé transforma impossíveis em milagres.
Na solidão do convento,
teu coração ardia como chama escondida.
Teu Cristo crucificado era teu esposo,
tua dor era oferenda,
tua oração era perfume que subia ao céu.
E quando o espinho da coroa de Jesus
se cravou em tua fronte,
não foi castigo,
foi aliança,
foi sinal de que tua vida
já estava unida ao mistério da Paixão.
Santa Rita,
tua paciência venceu a violência,
tua entrega venceu a injustiça,
teu silêncio venceu o desespero.
És mãe dos aflitos,
és advogada dos impossíveis,
és consolo dos que já não sabem esperar.
Rita bendita,
teu nome é oração dos desesperados,
teu olhar é alívio dos sofredores,
teu coração é abrigo para os que choram.
Em ti aprendemos que nada é perdido
quando a fé é oferecida em amor.
Ó Santa Rita das rosas e do espinho,
patrona da esperança,
em ti floresce a certeza
de que até a dor mais profunda
pode se transformar em milagre.
Poesia 047 — Santa Teresinha – A Pequena Flor do Amor
Grupo: Santos católicos
Santa Teresinha,
tua vida foi jardim secreto,
onde cada gesto pequeno
florescia como rosa para Deus.
Não buscaste grandezas,
não buscaste palácios,
tua estrada foi a infância espiritual:
amar nas pequenas coisas,
servir no silêncio,
oferecer o cotidiano como altar.
Tua grandeza não foi barulho,
foi suavidade.
Tua vitória não foi espada,
foi ternura.
Tua santidade não foi feita de milagres vistosos,
mas de pétalas escondidas
que caíam em cada ato de amor.
Teresinha, flor do Carmelo,
teu nome é sinônimo de simplicidade.
Tu mostraste que a santidade
não está distante nem impossível,
ela se encontra no riso oferecido,
na paciência vivida,
na entrega silenciosa.
Pequena no mundo,
mas imensa no céu,
te prometeste a derramar chuvas de rosas,
e até hoje teus devotos sentem o perfume
de milagres discretos que enfeitam o caminho.
Santa Teresinha,
pequena doutora do amor,
tua lição é eterna:
não é preciso ser grande,
é preciso amar.
Ó rosa de Deus,
ensina-nos o caminho da confiança,
da entrega, da simplicidade.
Que em cada pétala caída de tua vida,
o mundo encontre perfume de esperança.
Poesia 048 — Santo Antônio – O Santo do Pão e do Amor
Grupo: Santos católicos
Santo Antônio,
frade pequeno de hábito gasto,
mas gigante na palavra que inflamava multidões.
Tua voz não era só sermão,
era chama que acendia corações,
era luz que iluminava consciências,
era melodia que curava feridas da alma.
Amigo dos pobres,
teu pão se multiplicava nas mãos que nada tinham.
Onde havia fome, tu levavas fartura,
onde havia miséria, tu levavas esperança,
onde havia silêncio, tua oração florescia
como jardim inesperado.
Santo do amor,
teu nome é chamado nas esquinas,
teu nome é cantado em procissões,
teu nome é sussurrado nos altares da esperança.
Não és apenas casamenteiro,
és o elo que junta corações,
és o caminho que ensina o amor verdadeiro,
aquele que não prende, mas liberta,
aquele que não cobra, mas doa.
Santo Antônio,
teu menino Jesus nos braços
é sinal de tua ternura,
é lembrança de que o divino
cabe no colo de quem ama de verdade.
És santo da proximidade,
ninguém te invoca em vão,
porque tu sempre respondes,
seja no silêncio da fé,
seja no milagre inesperado.
Ó Santo Antônio milagroso,
frade da simplicidade,
amigo fiel dos que clamam:
em ti encontramos pão para a boca,
amor para o coração,
esperança para a vida.
Poesia 049 — Santo Expedito – O Santo da Urgência e da Coragem
Grupo: Santos católicos
Santo Expedito,
soldado da fé,
teu nome é grito de pressa,
teu passo é resposta imediata,
tua vida é chama que não espera amanhã.
No campo da batalha espiritual,
levantaste a cruz e disseste: “Hoje!”
Sob teus pés ficou esmagado o corvo,
que gritava “Cras! Amanhã!”
Mas tua coragem não se alimenta de atraso,
teu coração não se curva à demora.
Tu és o santo da hora exata,
do agora que salva,
do instante que muda destinos.
Expedito, mártir veloz,
teu sangue foi derramado como semente,
tua vida entregue como testemunho,
tua fé vivida como urgência.
Não buscaste tempo,
não esperaste oportunidade,
porque sabias que a fé verdadeira
não adia, decide.
Santo Expedito,
a ti recorrem os aflitos,
a ti clamam os que não podem esperar,
a ti suplicam os que precisam de resposta.
És advogado dos impossíveis rápidos,
és socorro dos que não têm demora,
és escudo dos que pedem auxílio na angústia.
Santo Expedito,
teu nome é martelo que quebra a lentidão,
teu exemplo é fogo que queima a indecisão,
teu axé é força que grita: Agora!
Ó mártir bendito,
no teu testemunho aprendemos
que o tempo da fé é o presente,
que a hora de amar é já,
que o momento de servir é hoje.
Poesia 050 — São Benedito – O Santo Negro da Humildade e da Caridade
Grupo: Santos católicos
São Benedito,
homem de pele escura e alma luminosa,
teu nome atravessou as cozinhas e os altares,
porque onde tu estavas,
Deus se fazia presente no gesto simples.
Cozinheiro dos frades,
teu fogo não era só da panela,
era fogo de amor que aquecia corações.
Cada pão que tu repartias
era milagre de ternura,
cada prato que tu servias
era oração sem palavras.
Negro de fé,
num tempo de correntes e desprezo,
tua dignidade foi coroa,
tua humildade foi trono.
Não precisaste de livros para ser mestre,
porque tua sabedoria era feita de bondade,
e tua ciência era feita de amor.
São Benedito,
protetor das crianças,
pai dos famintos,
irmão dos esquecidos.
Tua cozinha era altar,
tua sopa era bênção,
teu sorriso era evangelho vivo.
Santo do povo,
em ti os pobres se reconhecem,
em ti os pequenos encontram abrigo,
em ti a cor da pele se torna sacramento,
porque tua vida prova
que a santidade não tem fronteiras.
Ó São Benedito,
negro da luz eterna,
teu exemplo é pão que não acaba,
teu axé é mesa sempre farta.
E cada vez que alguém reparte o pouco que tem,
teu nome se renova no mundo.
Poesia 051 — São Cristóvão – O Portador de Cristo
Grupo: Santos católicos
São Cristóvão,
homem gigante de ombros largos,
teu corpo era força,
mas teu coração buscava sentido.
Quiseste servir o mais poderoso,
e encontraste no Menino Jesus
o Senhor de todos os senhores.
Na travessia do rio,
teus pés afundaram,
teus braços cansaram,
porque aquele Menino
era mais pesado que o mundo inteiro.
E ele te disse:
“Carregaste o Criador e sua criação.”
Cristóvão, portador de Cristo,
teu nome é lembrança eterna:
ser grande não é dominar,
é carregar com amor.
És santo dos viajantes,
protetor dos caminhos,
amigo dos que atravessam mares e estradas.
Poesia 052 — São Jorge – O Cavaleiro de Deus
Grupo: Santos católicos
São Jorge, guerreiro de luz,
teu cavalo branco corta a escuridão,
tua espada reluz como raio de justiça,
teu escudo reflete a esperança dos que clamam.
Não és apenas soldado,
és mensageiro de coragem.
Teu combate não é contra homens,
mas contra os dragões invisíveis
que devoram a fé e o coração.
Na campina aberta,
o dragão se ergueu em fogo e sombra,
mas tu, montado na firmeza da fé,
não tremeste.
Tua lança atravessou o medo,
tua espada cortou a mentira,
teu grito ecoou como trovão de Deus.
São Jorge, santo guerreiro,
em teu exemplo aprendemos
que nenhuma batalha é maior que a confiança,
que nenhum inimigo é mais forte que o amor,
que nenhuma noite resiste
ao amanhecer da fé.
És patrono dos que lutam sem descanso,
és amigo dos pobres,
és escudo dos que não têm defesa.
Tua armadura é mais que ferro,
é fé inquebrantável,
é coragem que não se curva.
Ogum no céu, Jorge na terra,
teu nome é oração que abre caminho,
teu axé é luz que protege.
Sob tua guarda, os filhos não temem,
os justos não caem,
os fracos encontram força.
São Jorge, cavaleiro eterno,
te saudamos com gratidão:
porque em cada luta da vida,
teu exemplo cavalga ao nosso lado.
Poesia 053 — São João Batista – O Profeta do Deserto
Grupo: Santos católicos
São João, voz que clama no deserto,
teu grito não era eco de solidão,
era anúncio de aurora,
era trombeta que rasgava o silêncio da espera.
Tua veste era simples,
teu alimento era do chão,
mas tua palavra era espada,
teu chamado era fogo.
E não havia poder humano
que pudesse calar a tua verdade.
Batista, mergulhador de almas,
teu rio Jordão se fez altar,
tuas mãos erguidas sobre as águas
faziam do batismo uma ponte para o céu.
E quando o Filho de Deus chegou até ti,
teus olhos reconheceram a promessa,
teu coração se curvou em reverência,
e a voz do Pai ecoou sobre as águas:
“Este é o meu Filho amado.”
São João, profeta da coragem,
não temeste falar contra reis,
não recuaste diante da injustiça,
não trocaste tua verdade por silêncio.
Teu martírio foi espada sobre o pescoço,
mas tua memória se tornou eternidade.
És chama que prepara o caminho,
és claridade que anuncia a luz maior,
és ponte entre a promessa e o cumprimento.
São João Batista,
patrono dos pregadores,
voz dos profetas,
guardião das águas.
Em tua vida aprendemos
que preparar o caminho é também missão,
e que ser fiel até a morte
é ser semente que nunca deixa de florescer.
Salve, São João!
No teu grito o deserto floresce,
no teu batismo a vida renasce,
no teu martírio a fé se fortalece.
Poesia 054 — São Miguel Arcanjo – Príncipe da Luz e Defensor da Fé
Grupo: Santos católicos
São Miguel,
arcanjo de fogo e espada,
teu nome é pergunta que ecoa no céu:
“Quem como Deus?”
E a resposta é trovão,
é luz que despedaça as trevas,
é vitória que não conhece derrota.
Príncipe dos exércitos do Altíssimo,
teu grito de guerra varre os céus,
tua espada incandescente corta as sombras,
teu escudo reflete o brilho da justiça.
Não és anjo de silêncio,
és anjo de combate,
és claridade que enfrenta a escuridão,
és coragem que não se curva.
São Miguel, guardião dos fiéis,
és defesa contra o mal,
és muralha contra os inimigos invisíveis,
és protetor dos que clamam no perigo.
Tua presença é raio que ilumina,
teu poder é vento que varre os espíritos maus,
tua voz é ordem que cala os abismos.
Arcanjo, guerreiro eterno,
em ti o bem se levanta,
em ti a justiça resplandece,
em ti a vitória já está escrita.
És comandante dos anjos,
és general da luz,
és sentinela da paz.
São Miguel,
em cada batalha da alma
teu nome é espada levantada,
teu axé é chama que protege.
Na tua frente o inimigo não resiste,
na tua guarda o fiel não teme,
na tua companhia a fé não cai.
Defensor dos pequenos,
protetor dos justos,
príncipe da claridade,
tua força é promessa eterna
de que a luz sempre vence.
Poesia 055 — São Pedro – Pescador e Guardião das Chaves
Grupo: Santos católicos
São Pedro,
homem simples das águas,
tua mão conhecia a rede,
teu corpo sentia o peso dos peixes,
mas teu coração já era escolhido
para pescar almas para o Reino.
Cristo te olhou e te chamou de pedra,
não porque fosses duro,
mas porque serias firme,
alicerce da fé,
coluna que sustentaria a Igreja
quando o mundo tentasse derrubá-la.
Pedro, apóstolo do povo,
teus pés caminharam ao lado do Mestre,
tu viste milagres,
tu ouviste parábolas,
tu provaste da amizade divina.
E ainda que negasses em tua fraqueza,
tua fé renasceu mais forte,
porque o amor de Deus não se apaga
nas quedas humanas.
São Pedro, guardião das chaves,
em tuas mãos está o abrir e o fechar,
em tua missão está a entrada do eterno.
És porteiro do céu,
mas também pescador da terra,
ensinando que todo homem
pode se transformar em discípulo da luz.
Teu trono não é de ouro,
teu poder não é de guerra,
teu axé é humildade,
tua coroa é serviço,
tua grandeza é ser servo.
Ó São Pedro,
pescador que se fez pedra,
homem que se fez santo,
guarda os que clamam em tua fé.
E quando nossas redes estiverem vazias,
enche-as de esperança,
para que jamais deixemos de acreditar.
Poesia 056 — São Roque – O Protetor contra as Pestes
Grupo: Santos católicos
São Roque,
jovem peregrino de coração puro,
teu caminho era estrada de serviço.
Quando a peste caiu sobre o povo,
tu não fugiste:
teu remédio era presença,
teu milagre era cuidado.
A doença também te alcançou,
mas Deus te escondeu no silêncio da mata.
Um cão fiel trazia pão à tua boca,
porque até a criação reconhecia tua santidade.
Roque bendito,
protetor contra pestes e epidemias,
teu nome é oração nas bocas aflitas,
teu exemplo é esperança nas noites de dor.
És lembrança viva
de que quem serve com amor
nunca é esquecido por Deus.
Poesia 057 — São Sebastião – Mártir da Coragem e da Fé
Grupo: Santos católicos
São Sebastião, soldado de Roma,
teu corpo vestia a armadura dos homens,
mas tua alma já se cobria com a armadura de Deus.
Foste flechado no tronco,
mas não tombaste:
teu sangue virou bandeira,
tua dor virou testemunho,
tua morte virou vida eterna.
Te amarraram como quem prende o vento,
te feriram como quem tenta calar a verdade,
mas tua fé era muralha que não se quebra,
teu olhar era luz que não se apaga.
São Sebastião, guerreiro da resistência,
cada flecha em teu peito
foi uma oração que subiu ao céu.
Cada gota de teu sangue
foi um rio de esperança para os cristãos perseguidos.
Teu silêncio ferido
gritava mais alto que mil exércitos.
Não foste derrotado pela espada,
nem pelas flechas,
nem pelas ordens dos homens.
Tua vitória foi permanecer fiel
ao Senhor que nunca abandona.
São Sebastião, guardião contra a peste,
protetor do povo sofrido,
nas tuas chagas o povo encontra alívio,
na tua coragem o povo encontra força.
És santo de fé que não recua,
és mártir de esperança que não morre,
és soldado eterno que luta com amor.
Ó glorioso Sebastião,
soldado de Cristo,
patrono da coragem,
em tua história aprendemos
que o corpo pode tombar,
mas a fé permanece de pé.
Antigo Egito
Poesia 058 — Anúbis – O Silêncio que Pesa
Grupo: Antigo Egito
Um rosto de chacal no horizonte,
onde o sol não nasce,
onde o vento fala em murmúrios
e a areia guarda segredos.
Ele mede corações com penas,
não pesa o ouro,
não pesa as espadas —
apenas o sopro escondido no peito.
Na sua presença o corpo vira pó,
mas o nome se arrasta em linhas invisíveis.
As tumbas não o assustam:
são apenas portas
que se abrem em silêncio.
Anúbis não caminha,
flutua como sombra entre sombras,
trazendo nas mãos o fio
que separa o esquecimento da memória.
E quando a balança se ergue,
os olhos da noite permanecem firmes:
a verdade não pode ser disfarçada,
porque ele a reconhece no silêncio
antes mesmo de ser pronunciada.
Poesia 059 — Hórus – O Olho que Vigia
Grupo: Antigo Egito
Um falcão risca o céu aberto,
asas afiadas como lâminas de vento.
No olho que brilha em seu rosto
cabe o sol inteiro.
O deserto o conhece pelo silêncio,
o Nilo o conhece pela margem,
os homens o conhecem pelo olhar
que não se fecha,
mesmo quando a noite invade.
Ele é herança da vingança,
filho da espera,
cicatriz que se transformou em coroa.
No seu voo, a justiça não se anuncia —
ela cai como raio,
precisa, inevitável.
Entre o pó da batalha e o sopro do tempo,
ergue-se sua sombra sobre a pedra:
não há mentira que se esconda,
não há sombra que não seja atravessada
pelo olho que tudo vigia.
Poesia 060 — Osíris – O Corpo que Floresce
Grupo: Antigo Egito
Um corpo despedaçado na noite,
mas o vento reuniu os ossos
como se juntasse estrelas no céu.
Da lama do Nilo ergueu-se o silêncio,
e no silêncio nasceu o verde.
A morte, cansada de ser fim,
se vestiu de germinação.
Ele reina sentado no trono de ébano,
não como quem domina,
mas como quem lembra:
a terra engole, mas também devolve.
O trigo sabe o segredo —
morre em grão,
renasce em pão.
Não há túmulo que o aprisione,
não há escuridão que o apague.
Seu nome é ciclo,
seu corpo é estação,
seu espírito é seiva.
E quem desce ao fundo com medo,
aprende na sua sombra
que a morte é apenas uma curva do rio.
Poesia 061 — Rá – O Sol que Cria e Renova
Grupo: Antigo Egito
Rá,
teu olho é o sol que desperta a vida,
tua barca atravessa o céu como chama eterna,
teu raio é espada que rompe a escuridão.
Senhor do horizonte,
em tua aurora o Nilo floresce,
em teu ocaso o mundo repousa.
Teu ciclo é promessa:
a cada dia a morte é vencida,
a cada noite a vida renasce.
Rá, criador de todos,
de teus olhos nasceram homens e deuses,
de tua palavra nasceu o vento,
da tua luz nasceu a terra.
És pai de faraós,
és chama que coroa os reis,
és guia que sustenta o império e o povo.
Mas também és guerreiro:
no barco noturno,
atravessas o rio dos mortos,
enfrentas a serpente Apófis,
e cada manhã tua vitória é aurora,
teu grito é claridade,
teu brilho é esperança.
Rá, olho que tudo vê,
tua chama não se apaga,
teu fogo não se esgota,
teu nome não se cala.
Em ti aprendemos que a vida é ciclo,
que a escuridão é apenas passagem,
que a luz sempre retorna.
Salve Rá,
pai do sol,
senhor do tempo,
olho eterno que nunca dorme.
Poesia 062 — Thoth – O Livro da Noite
Grupo: Antigo Egito
Uma pena pousa sobre o silêncio,
e o silêncio se torna palavra.
No escuro, a lua é seu rosto,
metade sombra, metade claridade.
Não luta com espadas,
seu campo de batalha é o papiro.
Cada risco é caminho,
cada signo é mundo.
O tempo lhe pertence:
guarda as horas nas linhas,
registra os deuses como quem grava pedras,
dá ao caos a ordem de um alfabeto.
Na sua balança,
a sabedoria não pesa mais que o sopro,
mas quem não a tem,
desaparece como pó ao vento.
O ibis, ave de seu segredo,
corta o céu em voo lento,
como se carregasse em cada asa
um alfabeto invisível.
E o homem que escreve,
sem saber,
é apenas eco distante
do deus que traçou primeiro a palavra.
Poesia 063 — Ísis – A Grande Mãe e Senhora da Magia
Grupo: Antigo Egito
Ísis,
teu nome é vento suave no deserto,
teu manto é noite estrelada que cobre os filhos,
teu coração é rio de ternura
que jamais seca.
Mãe dos deuses e dos homens,
tua força não é espada,
é colo.
Tua realeza não é trono,
é maternidade.
Tua grandeza não é grito,
é silêncio que protege.
Ísis, senhora da magia,
com tuas mãos de amor
juntaste os pedaços de Osíris,
e teu canto devolveu a vida
ao que parecia perdido.
Em ti a morte não vence,
em ti o impossível floresce.
Guardaste Hórus em segredo,
longe da fúria de Seth,
e em teu ventre escondido
a esperança do Egito respirou.
Teu leite alimentou a vitória,
tua paciência ergueu o trono,
teu amor sustentou o destino.
Deusa alada,
teus braços se abrem como asas,
teu abraço cobre o universo.
Em ti encontramos consolo,
em ti encontramos proteção,
em ti encontramos a força
que nasce do cuidado.
Salve Ísis,
rainha eterna,
mãe imortal,
senhora da magia que cura,
senhora do amor que não termina.
Poesia 064 — Ísis – A Mão que Recolhe Fragmentos
Grupo: Antigo Egito
Um corpo em pedaços espalhado pelo deserto,
e uma mulher que não teme a poeira:
cada osso recolhido,
cada palavra costurada de novo.
Do seu ventre nasce o segredo,
oculto entre o murmúrio das palmeiras.
O leite que dá de beber ao filho
é também promessa de vingança,
gota de eternidade na boca do futuro.
As asas se abrem como muralha de sombra,
cobrindo a terra,
cobrindo a dor.
Não há espada,
não há fogo:
há apenas paciência —
força de rio que nunca se cansa de correr.
E quando o tempo passa,
a semente escondida floresce.
O nome dela não é dito em grito,
mas sussurrado nas margens,
como feitiço que nunca se desfaz.
Hinduísmo
Poesia 065 — Brahma – O Criador e Senhor da Palavra
Grupo: Hinduísmo
Brahma,
do teu silêncio brotou o som primordial,
e o universo se ergueu como canto sagrado.
De tua respiração nasceram os dias,
de teu pensamento nasceram os mundos,
de tua boca nasceram os hinos
que ainda sustentam o tempo.
Senhor das quatro faces,
tua visão alcança os quatro cantos do cosmos,
teu saber abraça todas as direções,
tua sabedoria é fonte que nunca seca.
Não existe lugar onde tua palavra não chegue,
não existe canto onde tua voz não ecoe.
Brahma,
assentado sobre o lótus eterno,
teu trono é a pureza,
teu manto é a claridade da criação.
És pai dos Vedas,
dono do conhecimento que guia,
escriba do destino,
mestre da verdade que não se cala.
De ti vieram os deuses,
de ti vieram os homens,
de ti vieram os mundos visíveis e invisíveis.
E ainda assim, tua essência não se perde:
és sopro eterno,
és origem de tudo,
és fonte que nunca deixa de fluir.
Ó Brahma,
criador e senhor da palavra,
em tua lembrança nos tornamos parte da obra,
em tua bênção reconhecemos
que viver é participar da criação.
Om Brahmāya Namah!
Salve Brahma,
pai dos mundos,
senhor do início,
palavra que se fez vida.
Poesia 066 — Ganesha – O Removedor de Obstáculos e Senhor da Sabedoria
Grupo: Hinduísmo
Ganesha,
teu corpo une mundos:
cabeça de elefante, símbolo da memória eterna,
corpo humano, reflexo da vida presente.
Em ti o impossível se torna harmonia,
em ti a diferença se torna beleza,
em ti os inícios florescem como primavera.
Senhor dos começos,
nenhuma jornada começa sem tua bênção,
nenhuma estrada se abre sem teu axé.
Tua tromba afasta as pedras do caminho,
tuas mãos seguram doces e armas,
porque tu és equilíbrio de ternura e força.
Ganesha, senhor da sabedoria,
és o mestre do conhecimento,
guardião das letras e dos sons,
aquele que ilumina a mente dos que buscam a verdade.
Em ti o estudo se faz oração,
em ti a palavra se faz ponte,
em ti a sabedoria se torna luz.
Tuas orelhas largas ouvem todos os pedidos,
tua boca pequena fala apenas o necessário,
teus olhos pequenos enxergam além das aparências,
teu coração grande acolhe o mundo inteiro.
Ó Ganesha,
aquele que remove os obstáculos,
aquele que abre portas,
aquele que guia os viajantes da alma.
Em tua dança alegre,
a vida se torna celebração.
Em tua presença,
os medos se tornam poeira.
Om Gam Ganapataye Namah!
Salve Ganesha,
força doce, sabedoria viva,
abridor de caminhos,
protetor dos começos e do destino.
Poesia 067 — Kali – A Mãe Terrível e Libertadora
Grupo: Hinduísmo
Kali,
teu rosto é noite sem estrelas,
tua língua vermelha é fogo que lambe o medo,
teu colar de caveiras é lembrança
de que tudo o que é ilusório cai.
Mãe negra,
tua fúria não é crueldade,
é compaixão disfarçada de tempestade.
Tu destróis o ego para revelar a essência,
tu cortas correntes para libertar a alma,
tu ris do medo porque sabes
que atrás da morte mora a vida.
Kali, senhora do tempo,
tua dança é o fim dos impérios,
tua espada é a verdade nua,
tua boca é abismo que engole a mentira.
Tua nudez é liberdade,
teu grito é verdade,
teu sangue é vida que retorna à terra.
És mãe dos guerreiros,
és abrigo dos que não temem a dor,
és mestra dos que buscam além da ilusão.
Na tua fúria mora ternura,
no teu terror mora amor,
no teu caos mora a mais pura libertação.
Kali Ma,
mãe que devora para salvar,
tua força é a lembrança
de que nada é eterno senão o espírito.
E quem confia em ti
aprende a não se apegar às máscaras,
mas a viver o coração em liberdade.
Om Krim Kalikaye Namah!
Salve Kali,
mãe terrível,
mãe compassiva,
força que destrói,
força que liberta.
Poesia 068 — Lakshmi – A Deusa da Prosperidade e da Beleza
Grupo: Hinduísmo
Lakshmi,
senhora do ouro que não se gasta,
da fortuna que não se acumula,
mas se espalha como rio generoso.
Teu trono é flor de lótus,
símbolo da pureza que nasce da lama,
teu brilho é sol dourado
que ilumina a vida dos que confiam em ti.
Deusa da fartura,
tuas mãos derramam moedas de luz,
não apenas riqueza da terra,
mas abundância de alegria,
prosperidade de amor,
harmonia que sustenta a vida.
Lakshmi,
em ti o lar se enche de paz,
em ti o coração se abre em gratidão,
em ti a beleza não é vaidade,
mas reflexo da harmonia divina.
Tuas quatro mãos seguram bênçãos:
a flor que anuncia pureza,
a moeda que revela fartura,
o gesto que concede coragem,
o gesto que oferece proteção.
És consorte de Vishnu,
senhora da ordem e da vida próspera.
Onde teu nome é lembrado,
não há miséria que dure,
não há escassez que permaneça.
Ó Lakshmi,
deusa dourada,
tua presença é canto de esperança,
teu axé é promessa de abundância.
Om Shrim Maha Lakshmyai Namah!
Salve Lakshmi,
força do ouro sagrado,
mãe da prosperidade,
bênção que floresce como lótus eterno.
Poesia 069 — Saraswati – A Deusa da Sabedoria e da Música
Grupo: Hinduísmo
Saraswati,
senhora do rio claro,
tua água é fonte de saber,
teu canto é correnteza de verdade.
Deusa da palavra,
em ti nascem os versos,
em ti brotam os mantras,
em ti se escreve a memória do mundo.
És mãe da eloquência,
és guardiã da voz que ensina,
és inspiração de poetas,
és guia dos que buscam a luz do estudo.
Saraswati,
tua pele é alva como a aurora,
teu trono é flor de lótus,
teu véu é claridade que cobre a ignorância.
Em tuas mãos repousa o veena,
instrumento que faz do universo uma canção.
Cada corda tocada em teu nome
é melodia que abre caminhos,
é oração que se transforma em arte.
Deusa da sabedoria,
és consorte de Brahma,
mas tua luz não se apaga diante de ninguém.
Porque tua força é conhecimento,
tua coroa é discernimento,
teu axé é música que não termina.
Ó Saraswati,
mãe do saber,
ensina-nos a escutar,
ensina-nos a falar,
ensina-nos a aprender.
Que em teu rio de claridade
nossas mentes se purifiquem,
e que nossas palavras sejam sempre
cânticos de vida.
Om Aim Saraswatyai Namah!
Salve Saraswati,
deusa da música e da sabedoria,
senhora do conhecimento que ilumina,
voz eterna do universo em harmonia.
Poesia 070 — Shiva – O Destruidor e Renovador
Grupo: Hinduísmo
Shiva, senhor da dança eterna,
teu passo é fogo que consome,
tua mão é bênção que liberta,
teu olhar é silêncio que contém o universo.
Em teu corpo mora o fim,
mas também mora o começo.
Porque destruir, contigo,
é limpar o terreno para o novo,
é queimar a mentira para deixar a verdade,
é desfazer a ilusão para revelar o real.
Shiva Nataraja,
dançarino do cosmos,
cada gesto teu é criação,
cada giro teu é renascimento.
Em teu tambor pulsa o ritmo do mundo,
em teu tridente mora a força dos três tempos:
passado, presente e futuro.
Senhor dos ascetas,
teu trono é a montanha,
tua coroa é a lua crescente,
teu rio é o Ganges que desce de tua cabeça
para banhar a terra de vida.
Shiva, senhor do terceiro olho,
tua visão queima as ilusões,
tua chama dissolve as sombras,
tua respiração é vento que move o destino.
És terror e compaixão,
és destruição e criação,
és fogo que consome
e cinza que fertiliza.
Contigo aprendemos que nada morre,
apenas se transforma.
Om Namah Shivaya!
Salve o senhor da transformação,
aquele que fecha o ciclo,
aquele que abre o ciclo,
aquele que dança sobre o tempo
e mantém o universo em movimento.
Poesia 071 — Vishnu – O Protetor e Sustentador do Mundo
Grupo: Hinduísmo
Vishnu, senhor do infinito,
teu corpo repousa sobre a serpente cósmica,
teu sono é oceano de eternidade,
teu despertar é aurora que renova a criação.
Sustentador da vida,
teu sopro mantém as estrelas em seus lugares,
teu olhar guarda o equilíbrio do mundo,
teu coração pulsa no ritmo da harmonia.
Tu és o fio invisível
que costura o céu e a terra,
és o eixo que sustenta o universo
quando tudo parece desabar.
Vishnu, senhor dos avatares,
em ti Krishna sorri com a flauta divina,
em ti Rama ergue o arco da justiça,
em ti cada forma é caminho,
em ti cada descida é milagre.
Quando a escuridão cresce,
tu te fazes presença,
quando a mentira avança,
tu te fazes verdade viva.
Guardião da ordem,
teu disco corta as sombras,
tua concha ecoa como canto do cosmos,
teu cetro é promessa de equilíbrio.
Não reinas com tirania,
mas com ternura.
Não governas com medo,
mas com amor.
Ó Vishnu,
aquele que sustenta os mundos,
aquele que protege os justos,
aquele que renova a esperança.
Em ti aprendemos que a vida é correnteza,
mas não se perde,
porque tu és o leito do rio,
és o mar que acolhe,
és o oceano que devolve paz.
Om Namo Narayanaya!
Salve Vishnu,
pai da proteção,
senhor da compaixão,
protetor da criação que nunca dorme.
Mitologia nórdica
Poesia 072 — Freya – Ouro e Sangue
Grupo: Mitologia nórdica
O colar que brilha em seu pescoço
não é apenas jóia:
é pacto feito com a noite.
Pedras de âmbar escorrem como lágrimas
caídas de olhos que conhecem
o preço da beleza.
Ela cavalga entre mortos e vivos,
as rédeas presas ao grito do campo de batalha.
Metade dos guerreiros tombados
correm ao salão de sua sombra,
porque a morte também pertence
àquele que parece feito de desejo.
Freya não é ternura,
é perfume que corta como lâmina.
Seus pés deixam flores sobre a terra
e rastros de sangue no mesmo instante.
O amor que oferece é vertigem,
rio de mel que embriaga,
mas dentro dele mora sempre
a correnteza que arrasta.
E no fim,
quando o ouro e o sangue se confundem,
só resta o silêncio do véu
cobrindo o rosto de uma deusa
que é ao mesmo tempo
carícia e punhal.
Poesia 073 — Loki – O Riso da Ruína
Grupo: Mitologia nórdica
Um riso corta a mesa dos deuses
como faca escondida no banquete.
Não há ouro, não há muralha
que não se dobre diante do truque.
Ele veste mil rostos:
raposa que some no mato,
serpente que morde o próprio rabo,
fogo que dança sem jamais se deixar segurar.
A palavra é seu martelo —
mas não constrói,
desmonta.
Cada frase deixa um vazio,
cada silêncio abre um abismo.
Nas veias corre o imprevisto,
nas mãos escorre a mentira
que às vezes revela mais verdade
do que o sol pode suportar.
E quando o destino fechar as portas,
ele ainda estará lá,
no canto escuro da sala,
rindo como criança travessa
que acendeu o fósforo
e deixou o mundo arder.
Poesia 074 — Odin – O Silêncio do Corvo
Grupo: Mitologia nórdica
Um olho só vê o mundo,
o outro dorme na fonte escura.
A visão que perdeu
se transformou em memória dos deuses.
Dois corvos cortam o céu gelado:
um traz o que aconteceu,
o outro, o que ainda vai nascer.
O homem os chama,
mas não ouve resposta —
apenas o farfalhar das asas
que carregam destino.
Nove noites preso ao vento,
o corpo suspenso na árvore sem nome.
Não foi morte,
não foi vida:
foi o intervalo onde o abismo
sussurra o alfabeto secreto.
As runas não brilham,
sangram.
São cicatrizes riscadas no tempo,
lembrança de que a sabedoria
não vem como dádiva,
mas como ferida.
E quando o lobo levantar a boca,
quando o fim se sentar sobre os homens,
ele ainda será o silêncio do corvo:
escuro,
inevitável,
eterno.
Poesia 075 — Thor – O Martelo do Trovão
Grupo: Mitologia nórdica
O céu se rasga em cicatrizes de fogo,
e o barulho que cai sobre a terra
não é apenas trovão,
é lembrança de que a força também tem dono.
Um braço ergue o peso impossível:
ferro que retorna como ave fiel,
martelo que conhece sempre o caminho de volta.
Não há muralha que não trema,
não há gigante que não caia
diante do som metálico da fúria.
Chuva desaba em sua esteira,
o vento carrega a guerra em nuvens densas.
Mas no estrondo não mora apenas destruição:
há também proteção,
um teto de tempestade
para os que se abrigam sob sua sombra.
Quando os lobos famintos rondam a noite,
quando o caos ameaça a ordem,
o relâmpago não pergunta —
cai.
E o martelo repousa no chão
como selo de justiça,
marca de que o caos não venceu.
E se o fim chegar um dia,
ele cairá lutando,
com o raio ainda preso ao braço,
com o trovão ainda vivo na garganta do céu.
Robson POETA