Capa de Poemas 2025POEMAS 2025222 · 2025

Nervoso

Nervoso é o rei que tá na barriga da fome.

É o homem acordando cedo com dívida maior que esperança. É a mãe dividindo comida pra nenhum filho dormir chorando.

A fome não chega fazendo barulho. Ela entra devagar, apagando sorriso, encurtando paciência e endurecendo olhar.

Quem nunca sentiu fome acha que nervoso é raiva.

Mas não. Nervoso mesmo é o estômago vazio conversando alto com a alma cansada.

É pegar ônibus lotado sem saber se o dinheiro volta. É trabalhar o dia inteiro e ainda faltar mistura em casa.

A barriga vazia transforma silêncio em explosão. Porque fome não machuca só o corpo.

Machuca dignidade.

O rei da fome não usa coroa de ouro. Usa olheira funda, preocupação antiga e coragem sobrevivendo no limite.

Mesmo assim, o povo continua andando. Continua lutando, cantando, sonhando.

Porque quem enfrenta a fome todos os dias aprende a fabricar força onde o mundo só deixou vazio.

Monograma RPRobson POETA