Havia olhos que eram como o sol da manhã — quentes e bons. Olhos que riam junto com a gente, olhos que brilhavam de amizade. Esses olhos eram como abraços: leves, doces, seguros.
Mas existiam outros olhos. Olhos que não eram de sol, nem de estrela. Eram olhos-espinhos. Olhos que queimavam como fogo escondido. Eles não tocavam com as mãos, mas pareciam querer morder com o olhar.
Esses olhos seguiam as meninas na rua, faziam-nas querer virar vento ou vestir roupas largas como nuvens, para desaparecer no céu.
Um dia, uma menina pensou: “E se eu me disfarçasse de menino? Talvez os olhos-espinhos não me encontrassem.”
Ela amarrou os cabelos, vestiu roupas largas, escondeu o riso dentro do peito. Mas logo percebeu que não era ela quem precisava se esconder. Não era sua culpa.
Os olhos-espinhos eram errados. Eram eles que precisavam parar. Eram eles que carregavam o peso do erro.
A menina, então, contou para alguém de confiança. E descobriu que sua voz também podia ser escudo. Que falar alto podia ser asa. Que pedir ajuda podia ser coragem.
E que nenhum olhar torto tinha o direito de roubar o brilho de uma estrela.
Porque as meninas nasceram para ser livres, para correr com vestidos coloridos, ou calças cheias de bolsos, para soltar gargalhadas sem medo.
E quem carrega olhos-espinhos precisa aprender que olhar de verdade é ver com respeito.
Robson POETA
POEMAS 2025