ROBSON POETAA “Nega” Acumulou!!!Conto · acervo histórico
Conto · acervo histórico

A “Nega” Acumulou!!!

Texto assinado originalmente como Robson Souza, preservado no acervo literário.

ContoRobson SouzaAcervo histórico

A assinatura histórica do arquivo foi preservada.

Autoria: Robson POETA.

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Transcrição preservada a partir do arquivo autoral enviado ao acervo.

A “Nega” Acumulou!!!

Robson Souza

Minha mãe me pediu para fazer um jogo na Loteria, fui como de rotina. Cheguei na cabine de aposta, um filão. Esperei: li revistinhas, acenderam cigarros, fumei passivamente, masquei chicletes, nada da fila andar. Era só para fazer um jogo de um real. Fiquei impaciente, São Pedro queria chorar, a fila não saia do lugar, era uma loucura, aquilo estava rodeado de tanta gente. A Sete Portas não tinha mais espaço para estacionar os carros, eram muitas pessoas querendo fazer suas apostas, eram milhões para quem tirasse a sorte grande. Pessoas alugavam lugar, vendiam lugar e a fila se desembestavam para o Aquidabã. Cada segundo a fila ia crescendo, cada pessoa que chegava era uma discussão, era um empurra-empurra daqui, outro empurra-empurra de lá, até chegar o policiamento e organizar toda fila. Colocando as grávidas na frente, os senhores de idade do lado, os adultos no meio e os jovens lá atrás. Aqueles que estavam vendendo e alugando espaços na fila, foram se inscrever na Prefeitura. Eu que estava quase chegando, voltei de novo para o final da fila. Isso ocasionou um arerê geral, as pessoas se revoltaram, disseram o que queriam, desacataram a autoridade, socaram as caras dos velhos, chutaram e puxaram as grávidas. Os jovens aproveitaram para passar na frente, mas foram impedidos com cascudos e beliscões. A polícia saiu de fininho, foi chamar reforço. O pau continuou comendo lá na Sete Portas, agora, era a pista que estava sendo tomada, pessoas procurando pedras, pedaços de paus, garrafas... para acertar uns aos outros. Os carros buzinavam loucamente, estava um engarrafamento total nas vias de acesso à Sete Portas. Os motorista quiseram passar de qualquer jeito, tentavam o passeio, não dava, passar por cima, era muita gente, ir a pé, morriam. O jeito era ficar ali, paradão, assistindo MATRIX ao vivo. Os funcionários da Loteria fecharam as portas, os pessoais brigavam, já tinham esquecidos das apostas, eu estava batendo loucamente na porta da loteria, ninguém abria, eu insistia, batia, nada, olhava para trás - olha o pau comendo e vindo na minha direção. Foi quando sair da porta, ainda fui agredido com uma pedrada perdida na canela. Fiquei escondido em um dos prédios vizinho, muito sangue já tinham se espalhado pela Sete Portas, muitas pessoas já estavam desmaiada no meio fio. Os carros brancos, agora, eram vermelhos, os de cores ficaram com uma mecha vermelha no capuz e os vidros todo ensangüentado. Os velhinhos estavam sentados no canto com a boca partida, algumas grávidas pariram na hora, outras perderam o bebê. A guerra mesmo assim continuava. Dois cidadãos que não tinham nada a ver com a aposta, fumavam maconha. Quando a policia chegou reforçada, dando a merenda de todo mundo, enquadrando quem passava, quem estava, quem desmaiava e quem dava a luz. Eles pediam os documentos bruscamente - Cadê o documento? - “Táqui” senhor! Eles gritavam, batiam, aterrorizavam os envolvidos, e os que não eram envolvidos também merendavam fanta com bolo. Muitos partiam para cima dos policiais e descontavam suas raivas. Alguns persistiam em brigar, outros se embriagavam e gargalhavam da miséria ocorrida. A policia soltava os cachorros em cima, bacorejavam e convidavam aqueles mais rebeldes para dar um passeio vip pelas ruas de Salvador. Os que fumaram maconha foram bacorejados e interrogados - Cadê a maconha, rapaz? - Não sei, senhor! Respondia o cara. Os policias sabiam que aquele não iria responder nada a respeito da droga, então foi interrogar o outro. - Sem baratino, vamos, cadê a maconha!? - Está na mente! Respondia o outro na maior viagem, ainda sobre o efeito da droga. Os policiais se mataram de rir, e foram minimizar a situação, colocando todo mundo na fila de novo. O mesmo esquema: mulher grávida na frente, velhinhos do lado, adulto no meio e os jovens atrás A Loteria abriu as portas de novo. As pessoas faziam seu jogo, pagavam contas de luz, água e telefone, aqueles caras que alugavam os lugares voltaram com regularidade, para o povo não abrir a boca. As pessoas faziam cinco, dez reais de jogo, os velhinhos faziam cinqüenta, cem reais, as grávidas faziam apenas dois, três reais e eu fiz um real. Todos foram para casa com os seus boletos, alguns arranhões, cicatrizes e enfaixamentos pelo corpo. A ânsia, agora, era ver o resultado daqui a dois dias. Passados os dois dias, o mesmo filão, parecia que as pessoas tinham se multiplicado ou acharam só aquela Loteria da Sete Portas para verem o resultado. O mesmo esquema; um empurra-empurra daqui, outro empurra-empurra de lá, pessoas gritando que pisaram nos seus pés, bichas se aproveitando da muvuca para dar uma alisada nas cozas do “negão” , um beliscando o outro, outros bufavam desesperadamente, intoxicando todo mundo que estava lá dentro. A manhã passou rapidinho. A Sete Portas parecia mais a Avenida na época do Carnaval. Muitas pessoas saíam xingando outros saíam com uma carinha boa, alguns nem queriam ver o resultado na hora, os velhinhos nunca ganhavam e faziam outros jogos para a semana que vem. Eu fui levar o resultado para minha mãe. Em casa, eu e minha mãe íamos conferindo o resultado. Ganhava com dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte e se não acertasse nenhum número. Eram cinqüenta números apostados para vinte números sorteados, a chance era grande! Minha mãe conferia o resultado com calma, olhava o número não era, olhava outro também não combinava. Eu já estava ficando maluco, será que minha mãe não vai acertar nenhum número? Esse era o maior prêmio. Foram-se quarenta números dos cinqüentas e minha mãe não tinha acertado nenhum. Minha mãe a partir desse momento não queria mais saber de ficar conferindo e me deu para conferir enquanto ela tomava um copo com água, fiquei conferido e nada de acertar, que miséria, o trauma, agora, era de acertar um número e minha mãe colocar a culpa em cima de mim, ou sei lá! Fui conferindo. Minha mãe toda hora perguntava - E aï, como estamos? - Indo, minha mãe. Respondi friamente. Os números nem queriam saber de visitar a nossa cartela, quando, acabaram-se os números. Dei um grito! - Minha mãe nós ganhamos!!! - Nós ganhamos o quê “fio da peste”? - Ganhamos o jogo. - Eu não disse que eu ia ganhar, você é meu menino de ouro. Minha mãe ficou completamente alegre, chega a pressão dela subiu e tivemos que interná-la por dois dias. Fui resolver a questão do prêmio para minha mãe. Cheguei na loteria, mostrei a cartela premiada, os funcionários conferiram e aprovaram. - Seu prêmio é o acumulado, que sorte em garoto!? - Que dia eu posso receber senhor? - Daqui há uma semana chegará em sua casa, assine aqui esse papel. - Uma semana!? E vai ser em dinheiro ou em cheque? Perguntava totalmente ansioso, assinando o papel. - Relaxe garoto. - Estou relaxado, posso ir então? - Vá pela sombra! Fui para casa numa boa. Quando chego em casa – ô minha mãe já sentada no sofá. Me assustei. - E aí quanto foi? É em cheque ou em dinheiro? Falou que era meu? Minha mãe falava mais que a “nega do leite”. - Relaxe. Respondi friamente - Relaxe o quê, “fio da peste”. Quem manda aqui “é eu ou você”? - Calma mainha, o moço falou que o dinheiro vai chegar pelo correio. - Que dia!? - Daqui uma semana. - Ufa.... Uma semana se passou, minha mãe ficou ociosa para que chegassem as cartas do correio. Vinham a conta do telefone cobrando, da luz, da água, da França, do diabo a quatro, mas nenhuma da aposta. Minha mãe já estava furiosa, xingando todo mundo, batendo em todo mundo, até chegar uma carta diferente lá em casa. Minha mãe abriu, e leu. - SEU PRÊMIO CHEGARÁ DAQUI A DUAS HORAS, VÁ BUSCÁ-LO NO AEROPORTO..- Pronto que minha mãe se arrumou toda para pegar o prêmio no aeroporto. Chegando lá, um monte de senhores importantes, ternos e gravatas, calças de linho, óculos escuros, pastas nas mãos. Minha mãe estava meio desnorteada, não sabia onde encontrar seu prêmio. Ela andava de um lado para o outro, até esses senhores lhe chamarem. Foram para um refeitório e trocaram informações. Minha mãe queria pegar logo o seu prêmio e se mandar. Eles conversaram bastante, minha mãe assinou vários papéis, leu vários acordos, até chegar nos finalmentes: O prêmio acumulado. O moço passou todo documento para ela e deu-lhe um cheque no valor de mil reais. no mesmo momento aparece um negra bastante gorda na frente da gente. O senhor levantou-se e disse? - Aqui está o seu prêmio acumulado. Boa sorte! Minha mãe não entendeu nada e nem eu.